Convivendo com pessoas sem bom senso

Ainda estou devendo uma matéria sobre como consegui encontrar o apartamento que estou morando, mas sinto a necessidade de falar (antes de tudo) que a Austrália não é um mar de rosas. Se falarmos das paisagens e dos belos australianos, tudo bem, mas se contarmos o dia a dia dos intercambistas como, por exemplo, encontrar trabalho, pagar os altíssimos custos de estudo, dividir apartamentos com pessoas nem tão confiáveis e passar por apertos, seja com relação à falta de dinheiro, seja queimando a comida porque você nunca fez isso no seu país, isso tudo ninguém conta.

Hoje vou focar na dificuldade de conviver com pessoas que nunca tinha visto e que têm uma cultura bem diferente da minha. No apartamento que encontrei depois de sair da homestay, sou a única brasileira morando com três colombianas. O lado bom de não haver outros brasileiros ali é que, apesar de entender razoavelmente o espanhol delas, eu peço sempre que elas conversem comigo em inglês. Entretanto, quando conversam entre si – e como conversam! – elas só “hablan español” e, com isso, não escuto inglês durante o dia inteiro que estou no apartamento. Mas esse é o menor dos problemas.

O apartamento tem dois quartos, para duas garotas cada. Portanto, obviamente, divido o meu quarto com uma das colombianas. Admito que estou bem longe de ser uma pessoa organizada, mas perto delas, eu me sinto a pessoa mais metódica do mundo. Porque a minha bagunça se concentra apenas no quarto, com as minhas coisas. Já as outras garotas deixam suas coisas espalhadas por toda a casa. Tudo bem se elas deixarem a maquiagem na mesa da sala de estar, mas deixar junto com o laptop, as frutas, as peças de roupa e as garrafas por quase uma semana, é demais até pra mim.

Eu sempre lavo a minha louça após comer, hábito que trago desde casa, no Brasil. Mesmo assim, às vezes vejo a pia abarrotada de louça suja, e eu tenho que lavar pratos e talheres daquela montanha para ter como comer. Sigo testando a paciência que Deus me dá, e ainda nem cheguei aos grandes problemas.

Quem aí já ouviu falar em reggaeton? Sinceramente, espero que poucos. Aos abençoados que nunca ouviram, vou tentar explicar: é uma mistureba musical que tem uma batida de salsa ou rumba, cantada como hip hop, com letras de funk carioca e dança de axé. “Reggae”, só no nome. Sabe o “Kuduro”? Então, é um pouco pior. Até admito quase pareceu interessante nos três primeiros dias que escutei, mas depois de quase quatro meses, não aguento mais nem a introdução. Pra quem quiser uma amostra, segue um link, não sem as advertências acima:

Pois bem. A música já era ruim tocando na sala do apartamento… Agora imaginem as “festas” que as minhas roommates dão quando recebem amigos. O reggaeton toca tão alto que já recebemos duas reclamações dos vizinhos.
(Regra do locador: com a terceira reclamação, somos despejadas sem direito ao reembolso do bond – que é um mês de aluguel que se paga adiantado e que se recebe ao sair do apartamento, como se fosse um cheque caução). Legal, né?

E tem mais: “tudo bem” se elas fizessem as festas em horário “normal” (até as dez da noite, como no Brasil, por exemplo), mas algumas vezes eu cheguei do trabalho às 5h da manhã e a festa ainda “rolava solta”. Imaginem: eu acabada de passar um dia inteiro estudando e trabalhando, louca pra dormir, e as paredes australianas, finas como papéis, fazendo parecer que a festa acontecia dentro do quarto. Só com os tampões de ouvido para dormir que comprei consegui amenizar o problema.

Já não basta a bagunça, o som, as festas, tem o ronco. Algumas mulheres roncam, é normal, mas nem sempre mulheres roncam como homens e eu tenho o azar de dividir o quarto com uma dessas. Ainda se ela fosse dessas pessoas que variam o ronco, mais baixinho, para um pouco, volta, para… Não. Ela só tem duas variações de ronco: trator ou britadeira. Sim, definitivamente os tampões foram uma boa aquisição. Fica a dica.

sexo-roommate

Imagem: FSU News

E, pra fechar com “chave de ouro”, vou logo chutar o pau da barraca. Somos todas na mesma faixa etária, entre 25 e 27 anos, sendo normal manter uma vida sexual ativa e, se você mora sem os pais, isso fica relativamente mais fácil. Mas, quando você divide o seu quarto com outra pessoa, o mínimo que se espera é RESPEITO. Uma vez cheguei do meu trabalho de madrugada e fui direto pra cama. Ao entrar no quarto, notei que minha “roomie” estava dormindo com um rapaz na cama de solteiro dela. Até aí, tudo bem. Mas às 7:30 da manhã eles começaram a transar ali mesmo. Não sei quanto tempo durou para eles, mas eu nunca desejei tanto que uma transa durasse pouco. Quando acabou, e eu achei que finalmente dormiria, vieram os roncos. De ambos! Parecia que havia dois javalis brigando do meu lado. Aí não há tampão de ouvido que dê conta. Depois do sexo, os dois conseguiram dormir e eu não. Quando comecei a pegar no sono, lá pelas 9:30, os “pombinhos” engataram de novo. Eu estava tão abismada com a naturalidade com que me ignoravam, que não sabia o que fazer. Esperei terminarem e, com medo de haver uma terceira vez, fui dormir no sofá. Para minha surpresa, entretanto, tinha visita dela também dormindo na sala. Nem preciso dizer que fui trabalhar com a cara e com o humor de um zumbi no dia seguinte.

Agora a convivência está um pouquinho melhor. Tudo que vejo de errado eu falo, mas nem sempre adianta. Virei a chata da casa. E, por isso, peço até desculpas se, entre os leitores deste post, estiver alguma das minhas colegas de apartamento.

Peço desculpas também aos amigos leitores pelo tom de desabafo deste post. Mas fica a lição importante: antes de morar com pessoas que você não conhece, estabeleça regras claras de convívio. Pode ser algo simples, bobo que você acha que qualquer um teria bom senso de não fazer, mas fale, converse francamente porque nem sempre você vai ter a sorte de encontrar pessoas com a mesma cultura ou bom senso que você.

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16 thoughts on “Convivendo com pessoas sem bom senso

  1. Aih deve ser muito ruim mesmo!!
    Eu até agora não passei por isso, porque quando saí da minha homestay vim morar na casa em que trabalho, mas em dezembro vou ter que me mudar… aí que medo!!rs

      • Eu quero sim!!!! Depois me passa o valor e a data que estará disponível…
        Obrigada Deise!! Abraço 🙂

      • Oi Deise, tudo bem?
        As meninas que moram com vc vão sair mesmo? Eu estou procurando já, pois vou precisar a partir do dia 02/01 que é quando volto de viagem… Se tiver a vaga me avisa!
        Abraço 🙂

      • Olá, Marina! Elas sairão no dia 7 de dezembro, então coloquei um comunicado no gumtree e já apareceram muitas pessoas para visitar o apartamento. Infelizmente já escolhi as moradores, até porque não teria como esperar até janeiro. Sinto muito! Mas se eu puder lhe ajudar com algo, estarei por aqui. Abraço!

      • Oi Deise,
        Meu contrato acaba dia 08/12, mas como vou viajar eles deixaram eu ficar até eu conseguir alguma coisa ou no máximo até a data da minha viagem…. mas, sem problemas!!!!
        Ah, se você souber de algum emprego, estou procurando também!!rs
        Se tiver Facebook e quiser me add https://www.facebook.com/marinaalix
        Abraço e obrigada!! 🙂

  2. Vc é uma santa! Se sou eu tacava água nos dois pra desengatar, fora o escândalo em alto e bom português q eu faria…..eu botava o povo pra correr….tipo um SAI FORA, SAI FORA….cada um dá o q quer mas eu ñ sou obrigada a assistir o acasalamento d ninguém. …parabéns! Vc é muito civilizada….

  3. I think that live in a multicultural country such as Australia it’s not easy, but I also think that meeting new people with “suitcase” national cultural different from own identy it’s something that helps to grow up always our soul.

  4. Ahahaha….e isso ai Deise, voce passou esta passando por uma experiencia nunca vista antes! isso e maturidade, claro nao so de rosas e a australia como voce mesmo disse anteriormente……….experiencias negativas nos fortalece a nos ajuda a crescer. Faz 11 anos que vivo aqui na Australia e ja passei tambem por inumeras experiencias inusitadas. Boa Sorte .
    Giuliano

  5. não sei o que achei pior, o acasalamento ou a “mistureba musical que tem uma batida de salsa ou rumba, cantada como hip hop, com letras de funk carioca e dança de axé”

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